Um curso autoral de Leoncioberllem
Curso de Letramento Racial.
Este é um espaço de formação que estou construindo por partes. A ideia é entender a questão racial desde a história da África, passando pela colonização e chegando aos seus efeitos na sociedade brasileira.
Conhecer a Parte 3Objetivos da Parte 1
O que vamos compreender nesta etapa.
- Reconhecer a África como origem comum da humanidade.
- Conhecer civilizações africanas anteriores à colonização europeia.
- Entender como a escravização e a colonização produziram estereótipos raciais.
- Ampliar o olhar sobre a diversidade de povos e territórios africanos.
01 — Ponto de partida
A história de todos nós começa na África.
No fundo, você já deve ter ouvido falar que a África é o berço da humanidade. Mas eu quero que você entenda o tamanho disso: a história de todos nós começa no continente africano.
O Homo sapiens surgiu na África há cerca de 300 mil anos. Houve saídas anteriores do continente, mas a grande dispersão que deu origem à maior parte das populações que vivem fora da África ganhou força por volta de 60 a 70 mil anos atrás. Em outras palavras, toda a humanidade carrega uma origem africana comum.

02 — Muito antes da colonização
A África produziu ciência, cidades e poder político.
Quando a história é contada apenas a partir da Europa, muita coisa fica de fora. Eu vou te mostrar civilizações como o Egito Antigo, Cuxe e Axum. Não estou falando de uma África imaginada. Estou falando de sociedades africanas construídas por povos africanos.
Esses povos desenvolveram conhecimentos em matemática, medicina, engenharia, escrita, agricultura, metalurgia, comércio e organização política. Não existe uma única civilização africana: existem muitas histórias, em tempos e territórios diferentes.
Egito Antigo
Arquitetura, medicina, matemática, escrita e uma administração capaz de organizar cidades, agricultura e obras monumentais.
Reino de Cuxe
Napata e Meroé foram centros de poder, comércio e produção de ferro. Cuxe também teve rainhas governantes conhecidas como kandakes.
Axum
Um reino ligado a rotas comerciais entre a África, o Mediterrâneo, a Arábia e a Ásia, com moeda própria, escrita e arquitetura.
Histórias que continuam
Axum ocupou áreas dos atuais territórios etíope e eritreu. Sua história ajuda a entender tradições políticas e culturais da região.
03 — A fabricação de uma imagem
Como o ser negro foi transformado em mercadoria e estereótipo.
Eu também vou retomar o processo de como pessoas negras foram transformadas em mercadoria pelo tráfico e pela escravização. Depois, a África passou a ser reduzida a atraso, selva, fome, doenças, guerras, miséria e pobreza. Essa imagem não apareceu por acaso.
Ela escondia impérios, cidades-Estado, formas de organização política, conhecimentos e relações sociais altamente elaboradas. Também ajudava a justificar a violência colonial, como se os europeus estivessem levando civilização a povos sem história.
O tráfico atlântico e a escravização transformaram milhões de pessoas africanas em mercadoria e fortaleceram ideologias racistas.
A Conferência de Berlim definiu regras entre potências europeias e acelerou a partilha colonial do continente africano.
Regimes coloniais impuseram fronteiras, trabalho forçado e formas de controle político, econômico, cultural e educacional.
Colonizar não é apenas ocupar um território. É impor outra organização econômica, política e social e tentar controlar língua, educação, cultura e crenças. Para tornar essa violência aceitável, foi preciso chamar os colonizados de “bárbaros”.
Em Madagascar, Ranavalona III, última soberana do Reino Merina, foi retirada do poder e exilada após a anexação francesa. Essa história vai aparecer com mais profundidade em outra parte do curso.
04 — África no plural
Um continente não cabe em uma única imagem.
Hoje, o continente africano reúne 54 países e mais de 1,5 bilhão de pessoas. São milhares de línguas, identidades, modos de vida, territórios e experiências urbanas e rurais.
As consequências da colonização ainda existem, inclusive nas fronteiras traçadas e nas desigualdades. Mas a África não pode ser explicada apenas pelos problemas. Vou colocar aqui diferentes povos africanos para você ampliar suas referências e não usar somente o mundo europeu como espelho.
Antes das imagens
Pare e pense.
- Qual imagem da África apareceu primeiro na sua formação?
- Por que tantas civilizações africanas ficaram fora do que você estudou?
- O que muda quando você entende que a história humana começa na África?
Ao final da Parte 1
Povos africanos: referências para ampliar nosso olhar.
Estas fotografias não representam toda a África. Elas são apenas um ponto de partida para enxergar a pluralidade de povos, territórios e modos de vida do continente.




Parte 1 concluída
Este é apenas o começo do percurso.
Agora que recuperamos a África como origem e entendemos a violência que tentou apagar essa história, podemos seguir. Na Parte 2 vamos ver como conhecimentos produzidos no continente chegaram ao mundo grego.
Continuar para a Parte 2Pesquisa e transparência
Fontes da Parte 1
Pesquisa, elaboração do material e curadoria: Leoncio Santos Silva, Leoncioberllem. O conteúdo foi construído a partir de diferentes fontes de pesquisa, documentos institucionais e referências educacionais, citadas ao lado.
Objetivos da Parte 2
O que vamos compreender agora.
- Reconhecer o Egito e a Núbia como centros africanos de conhecimento.
- Diferenciar documento preservado, testemunho antigo e tradição posterior.
- Conhecer os relatos sobre Tales, Pitágoras, Platão e Eudoxo no Egito.
- Entender que os saberes circularam e foram transformados entre diferentes povos.
05 — Antes da Grécia clássica
A África já produzia e registrava conhecimento.
Quando a gente aprende que a filosofia nasceu pronta na Grécia parece que antes não existia pensamento. Mas existia. No vale do Nilo havia observação da natureza, cálculo, medicina, escrita, educação e reflexão sobre a vida em sociedade.
Isso não é uma tentativa de trocar um centro pelo outro. É reconhecer que a história do conhecimento foi construída por muitos povos. O Egito estava na África e mantinha relações com a Núbia, o Levante e diferentes cidades do Mediterrâneo. Pessoas, objetos e ideias circulavam por essas rotas.
Papiro Rhind
Copiado por volta de 1550 a.C. a partir de um texto ainda mais antigo. Reúne problemas com frações, medidas, áreas e volumes. É uma prova material de que havia uma tradição matemática organizada no Egito.
Ver no British MuseumPapiro Edwin Smith
Datado de aproximadamente 1600 a.C. apresenta 48 casos clínicos. O texto observa ferimentos, descreve diagnósticos e propõe tratamentos. Ele mostra uma prática baseada em experiência e registro.
Conhecer a publicaçãoEnsinamentos de Ptahhotep
Essa tradição reúne reflexões sobre escuta, justiça, responsabilidade e convivência. É uma forma antiga de pensamento ético e político que existia séculos antes dos filósofos gregos mais conhecidos.
Ler a referência da UCL06 — Como ler essa história
Nem toda fonte prova a mesma coisa.
Antes de falar dos filósofos eu preciso fazer um cuidado. Uma coisa é ter um papiro produzido no Egito. Outra é um autor grego contar que alguém viajou para lá. Outra ainda é uma biografia escrita muitos séculos depois repetir essa viagem.
Todos esses registros importam, mas eles não têm o mesmo peso. Por isso eu não vou apresentar como certeza aquilo que a pesquisa ainda discute. Reconhecer a África não exige inventar prova. A história documentada já é forte o suficiente.
Documento preservado
Papiros, inscrições e objetos produzidos no próprio período estudado.
Testemunho antigo
Um autor antigo registra uma prática, uma ideia ou uma viagem.
Tradição debatida
Um relato posterior existe, mas não temos confirmação contemporânea.
07 — Os nomes que aparecem nas fontes
Quem teria aprendido no Egito.
Escritores da Antiguidade ligaram vários pensadores gregos ao Egito. Entre os nomes mais conhecidos estão Tales, Pitágoras, Platão e Eudoxo. As viagens não têm o mesmo grau de comprovação e os detalhes sobre o que cada um aprendeu foram ampliados ao longo do tempo.
Essas imagens também precisam ser lidas com cuidado. Não são fotografias. São bustos, cópias romanas e gravuras feitas muito depois da vida dessas pessoas. Elas ajudam a identificar os personagens, mas não garantem como eles realmente eram.
Tradição posteriorTales de Mileto
Geometria e observaçãoBiografias antigas posteriores dizem que Tales esteve com sacerdotes egípcios e aprendeu geometria. Nenhum texto escrito por ele chegou até nós.Gravura de 1761, edição de Diógenes Laércio. CC0
Viagem plausívelPitágoras de Samos
Número, religião e filosofiaIsócrates já relacionava Pitágoras ao Egito no século IV a.C. A viagem é considerada plausível por parte dos pesquisadores, mas não é possível afirmar exatamente quais conhecimentos ele levou consigo.Busto nos Museus Vaticanos. Foto: Andargor. Domínio público
Tradição posteriorPlatão
Filosofia, política e educaçãoDiodoro da Sicília e Diógenes Laércio incluem Platão entre os viajantes que foram ao Egito. A tradição é antiga, mas não existe prova produzida na época da suposta viagem.Cópia romana após Silânion. Foto: Marie-Lan Nguyen. CC BY 2.5Eudoxo de Cnido
Matemática e astronomia
Diógenes Laércio conta que Eudoxo permaneceu no Egito por um ano e quatro meses e conviveu com sacerdotes. Diodoro também o associa à astronomia egípcia. O relato é detalhado, mas continua sendo uma fonte escrita depois da vida dele.
08 — O que disseram os autores antigos
A própria tradição grega olhava para o Egito.
Os relatos abaixo não encerram a discussão. Eles mostram que autores gregos e romanos reconheciam o Egito como lugar de conhecimento. Isso é importante porque a imagem de uma Grécia isolada e sem diálogo com a África não corresponde nem ao que os antigos contavam sobre si mesmos.
A geometria
Ao explicar a medição das terras depois das cheias do Nilo, Heródoto relaciona essa prática ao nascimento da geometria e diz que ela passou depois do Egito para a Grécia.
Ler a fonte antiga ↗As artes matemáticas
Na Metafísica, Aristóteles afirma que as artes matemáticas foram estabelecidas primeiro no Egito porque ali a classe sacerdotal tinha condições para estudar.
Ler a fonte antiga ↗As viagens ao Egito
Diodoro reúne uma tradição sobre visitas de Sólon, Platão, Pitágoras, Eudoxo e outros. Como escreveu séculos depois de vários deles, o texto registra uma memória antiga e precisa ser comparado com outras fontes.
Ler a fonte antiga ↗Atividade de reflexão
Pare, compare e responda.
- O que muda quando você descobre que conhecimentos africanos são anteriores à Grécia clássica?
- Qual é a diferença entre um papiro do período e uma biografia escrita séculos depois?
- Por que tantos currículos apresentam a Europa como ponto inicial do conhecimento?
Parte 2 concluída
O conhecimento também tem caminhos.
Nesta parte nós voltamos ao berço de muitos saberes e acompanhamos uma parte de sua circulação pelo Mediterrâneo. Nas próximas etapas vamos continuar essa caminhada até chegar ao Brasil e entender o que foi apagado, transformado e reconstruído no nosso território.
Ver as partes do cursoPesquisa e transparência
Fontes da Parte 2
Pesquisa, elaboração do material e curadoria: Leoncio Santos Silva, Leoncioberllem. O conteúdo foi construído a partir de diferentes fontes de pesquisa, incluindo textos antigos, acervos de museus, obras acadêmicas e referências institucionais, citadas ao lado. As tradições históricas ainda debatidas estão identificadas no texto.
Entre as obras consultadas está Kabengele Munanga, Origens africanas do Brasil contemporâneo, Global, 2009.
- UNESCO — História Geral da África
- Heródoto — Histórias, livro 2
- Aristóteles — Metafísica, livro 1
- Isócrates — Busíris
- Diodoro da Sicília — Biblioteca Histórica
- Diógenes Laércio — Vidas e doutrinas
- Stanford — Pitágoras e a tradição do Egito
- British Museum — Papiro Matemático Rhind
- Met Museum — Medicina no Egito antigo
- UCL — Ensinamentos de Ptahhotep
- AABA — Raça e variação humana