Reportagem-documentário · Biritinga, Bahia
Vila Nova: memória que se faz território
No semiárido baiano, uma comunidade certificada como remanescente de quilombo preserva narrativas de liberdade, saberes do trançado da palha e uma história transmitida entre gerações.

Abertura
Abertura da reportagem
Eu nasci em Vila Nova, em Biritinga, Bahia. Este projeto nasce do desejo de tornar acessível a história de um território que faz parte da minha própria história.
Contar Vila Nova exige duas formas de escuta. Uma passa pelos documentos — registros da Fundação Cultural Palmares, do IBGE, da Assembleia Legislativa da Bahia e de organizações públicas. A outra passa pela memória comunitária, onde nomes, lugares e saberes atravessam o tempo pela voz de quem viveu. Nesta reportagem, cada informação aparece com sua origem: fato cadastral, relato oral ou ponto ainda aberto à confirmação dos moradores.
Localização IBGE
11°40′28″S38°41′47″W
Coordenada da localidade quilombola Vila Nova no Censo 2022.
Certificação
6 jul. 2010Portaria FCP nº 82/2010; processo 01420.001186/2007-11.
Biritinga · Censo 2022
1.312Pessoas quilombolas no município — 8,66% da população total.
Organização
Desde 2003Ano de fundação informado para a Associação Quilombola das Vilas Unidas.
Cartografia documental
Onde está Vila Nova
O mapa usa o limite municipal e coordenadas publicados pelo IBGE. Selecione um ponto para comparar sua posição.
Fontes cartográficas: IBGE, Localidades Quilombolas 2022 e Malha Municipal de Biritinga.
Cartografia sistemática e temática
Atlas geográfico de Vila Nova
Dez pranchas organizam localização, relevo, declividade, vegetação, mudança de cobertura, precipitação, temperatura, solos, geologia e paisagem produtiva.
Mapas elaborados por Leôncio Santos Silva — Leoncioberllem.

Mapa sistemático · prancha 01
Vila Nova e entorno
A prancha de referência reúne rede viária, cursos d’água, localidades, curvas de nível e o limite municipal de Biritinga.
Ver prancha em resolução completa ↗Leitura principal
O ponto de Vila Nova é o registro oficial do IBGE. Estradas e drenagens dão contexto de acesso, mas a base colaborativa pode ter omissões.
IBGE · Localidades Quilombolas e malha municipal ↗ · OpenStreetMap ↗
Memória de origem
A história que a comunidade conta
Em 2009 e 2010, duas reportagens registraram o testemunho de Jacinto Costa, então liderança de Vila Nova. A narrativa situa as raízes da comunidade no século XIX e cita Filipa — ou Felipa — Preta, o tenente Eloir, Hostiana e Pedro Cabeça como personagens centrais de uma história marcada por fugas da escravidão, alforrias e abrigo a outras pessoas negras em busca de liberdade.
Uma das versões, publicada pelo Movimento de Organização Comunitária, associa o início dessa história ao ano de 1886. Conta que Hostiana, filha de Filipa Preta, teria se unido a Pedro Cabeça e ido viver nas chamadas “Terras do sem fim”. Ali, segundo o relato, famílias vindas de Ouriçangas e de outros lugares encontraram abrigo.
A matéria da Assembleia Legislativa da Bahia também menciona deslocamentos desde Inhambupe e São Gonçalo dos Campos e identifica as antigas fazendas Urubu/Bamboril como a área que passou a ser chamada Vila Nova.
Uma história oral não é um documento menor. Ela é um arquivo vivo — e deve ser apresentada com a voz, as variantes e os limites de quem a transmitiu.
Silêncio e transmissão
Quando falar da origem parecia perigoso
O silêncio também aparece como parte da memória de Vila Nova. Uma pesquisa social realizada em 2008, citada pelo MOC, relatou dificuldade para obter informações sobre as famílias vindas de Ouriçangas. A interpretação registrada naquele trabalho é que o medo de perder a terra ou de sofrer nova violência fez com que a orientação de “não falar” atravessasse gerações.
O dado precisa ser lido com cuidado: trata-se da análise de uma pesquisadora a partir de entrevistas, não de uma explicação única para todos os moradores. Ainda assim, ele ajuda a compreender por que registrar a história hoje é mais do que reunir datas. É criar condições para que a comunidade possa narrar a si mesma sem que outras vozes decidam o que deve permanecer escondido.
Mulheres, trabalho e Caatinga
A palha guarda técnica, renda e pertencimento
Em 2010, o MOC registrou a trajetória de Maltires Luciana dos Santos e Almerinda de Jesus, então apresentadas como anciãs do artesanato local. Os depoimentos descrevem a extração de recursos da Caatinga, o aprendizado do trançado desde a infância e a produção de esteiras e chapéus como parte do sustento familiar.
A experiência “Tecendo o Amanhã”, catalogada pelo Governo da Bahia, informa que mulheres de Vila Nova se organizaram a partir de 2008 para produzir artesanato com palha de licurizeiro. A iniciativa articulava renda, recuperação de uma prática tradicional e preservação da Caatinga.
O registro do MOC, por sua vez, usa o nome local “Ariri” para a palmeira. Confirmar com as artesãs se os termos designam a mesma planta é uma pergunta de campo — e não algo que a reportagem deve presumir.
A organização produtiva ganhou novo registro público em 2021, quando a Codevasf formalizou a doação de um kit de corte e costura à Associação Comunitária Quilombola das Vilas Unidas. O documento comprova a entrega e o valor registrado naquele momento; não permite concluir como o equipamento foi usado depois.
Acervo comunitário
Vila Nova em imagens
Os registros mostram cultura, trabalho, transmissão de saberes e organização coletiva a partir do olhar de quem vive a comunidade.
Imagens da comunidade cedidas por moradores.

Cultura e pertencimento. Moradoras e crianças reunidas no primeiro Festival Cultural do Quilombo de Vila Nova.

Laços comunitários. Um círculo de mãos registra união, participação e construção coletiva.

Saber-fazer. O trançado transforma fibras vegetais em utensílios e preserva uma técnica transmitida entre gerações.

Terra e trabalho. Amendoim e moradores reunidos em uma atividade agrícola comunitária.

Artesanato e transmissão. Mulheres confeccionam peças com fibras vegetais em um espaço de convivência comunitária.

Educação antirracista. Atividade do Festival Cultural relaciona identidade negra, valorização do cabelo e enfrentamento ao racismo.
Reconhecimento institucional
Do autorreconhecimento ao cadastro oficial
A Fundação Cultural Palmares registra que o pedido de certificação de Vila Nova foi aberto em 11 de maio de 2007. Em junho de 2009, uma audiência pública da Comissão de Promoção da Igualdade da Assembleia Legislativa da Bahia discutiu memória, documentação e políticas públicas no município. Em 6 de julho de 2010, a comunidade foi certificada pela Portaria nº 82/2010, no processo 01420.001186/2007-11.
A data exige precisão. Uma reportagem do MOC informa 21 de junho de 2010; já o cadastro oficial da Fundação Palmares registra 6 de julho. Nesta página, prevalece a data do registro oficial, enquanto a divergência permanece documentada nas notas de apuração.
O Censo 2022 trouxe outra camada. Em Biritinga, 1.312 pessoas se declararam quilombolas, o equivalente a 8,66% dos 15.146 habitantes do município. O número é municipal — não corresponde à população de Vila Nova. Na classificação territorial usada pelo IBGE naquela data, essas pessoas foram contabilizadas fora de territórios quilombolas oficialmente delimitados.
Entenda a diferença
Certificação não é titulação
O que está comprovado
Vila Nova é uma comunidade certificada.
A Fundação Cultural Palmares emitiu a certidão de autorreconhecimento e incluiu a comunidade no cadastro geral previsto pelo Decreto nº 4.887/2003.
O que isso não prova sozinho
A certificação não equivale ao título da terra.
Identificação, delimitação, regularização e titulação fundiária são outras etapas. Na esfera federal, a competência é do Incra; estados e municípios também podem atuar conforme o domínio da área.
Organização e direitos
Uma comunidade também se lê por suas reivindicações
O Mapa das Organizações da Sociedade Civil, mantido pelo Ipea, informa 2003 como ano de fundação da Associação Comunitária Quilombola das Vilas Unidas e registra a entidade como ativa. Em documentos anteriores, a associação aparece ligada à representação comunitária e às atividades produtivas das mulheres.
Os registros públicos também revelam demandas concretas. Em 2016, uma indicação apresentada na Assembleia Legislativa pediu a instalação de uma torre de telefonia móvel para Vila Nova e para a região do assentamento na BA-084. O parecer foi aprovado naquele ano. O documento comprova a reivindicação histórica — não permite afirmar, sem verificação atual, se o problema permanece ou como foi resolvido.
Essa distinção orienta toda a reportagem. Para falar do presente, será preciso ouvir moradores sobre água, transporte, comunicação, educação, saúde, trabalho e situação fundiária. Dados antigos ajudam a formular perguntas; não devem substituir a realidade de hoje.
Linha do tempo documentada
Vestígios, organização e reconhecimento
Datas de memória oral são identificadas como relato; datas administrativas seguem os registros públicos consultados.
Ano associado ao início da narrativa de Filipa Preta em relato oral publicado em 2010. Requer pesquisa histórica complementar.
Memória registrada pelo MOC menciona a construção de uma cisterna por iniciativa municipal.
O mesmo relato situa nessa década a construção de uma escola e de um campo de futebol.
Ano de fundação informado no Mapa das OSC para a Associação Comunitária Quilombola das Vilas Unidas.
Em 11 de maio, é protocolado o pedido de certificação de Vila Nova na Fundação Cultural Palmares.
Entrevistas socio-históricas e início registrado do grupo de mulheres Tecendo o Amanhã.
Audiência da Comissão de Promoção da Igualdade da ALBA discute memória e direitos em Biritinga.
Em 6 de julho, Vila Nova é certificada pela Portaria FCP nº 82/2010.
Indicação legislativa solicita torre de telefonia para Vila Nova e região da BA-084.
Extrato oficial registra doação de kit de corte e costura à associação comunitária.
IBGE registra a localidade Vila Nova e contabiliza 1.312 pessoas quilombolas em Biritinga.
Este projeto organiza documentos, explicita lacunas e abre espaço para um arquivo comunitário vivo.
Arquivo comunitário vivo
Esta história não termina na publicação
Quem nasceu, viveu ou mantém vínculos com Vila Nova pode ajudar a completar este acervo: fotografias de família, lembranças da escola, da cisterna, do campo, do artesanato, das festas, dos caminhos e das mudanças do território.
Toda contribuição deve ser publicada apenas com autorização, identificação de autoria e possibilidade de correção. Memória comunitária não é material gratuito: é patrimônio, vínculo e responsabilidade.
Enviar uma lembrança ou fotografia ↗
Perguntas essenciais
Vila Nova em respostas diretas
Informações resumidas para consulta, estudo e pesquisa.
Onde fica o Quilombo Vila Nova?
Em Biritinga, Bahia, nas coordenadas aproximadas −11.674525 e −38.696465 registradas pelo IBGE.
Quando Vila Nova foi certificada?
Em 6 de julho de 2010, pela Portaria nº 82/2010 da Fundação Cultural Palmares.
Certificação quilombola é o mesmo que título da terra?
Não. A certificação reconhece o autorreconhecimento e inclui a comunidade no cadastro. A regularização e a titulação fundiária seguem outras etapas.
Quantas pessoas vivem em Vila Nova?
Não foi localizado um número público confiável e atualizado específico da comunidade. O Censo 2022 contabilizou 1.312 pessoas quilombolas em todo o município de Biritinga.
Qual é a importância do artesanato de palha?
Registros públicos o descrevem como prática feminina tradicional, fonte complementar de renda e atividade ligada à preservação da Caatinga.
A linha circular dos mapas é o limite oficial do quilombo?
Não. É uma janela analítica de 12 km ao redor do ponto de Vila Nova registrado pelo IBGE. Até a data de corte, não foi localizado um polígono territorial oficial público para a comunidade nas bases consultadas.
Transparência editorial
Fontes e método
Esta versão diferencia cadastro oficial, memória oral publicada, análise cartográfica e inferência editorial. Não foram localizados, até a data de corte, dados públicos confiáveis sobre o número atual de famílias de Vila Nova, a composição atual da associação ou a situação fundiária completa do território. Os mapas foram elaborados por Leôncio Santos Silva — Leoncioberllem e documentam suas fontes e limitações em cada prancha.
Abrir lista completa de fontes
- Fundação Cultural Palmares — cadastro de comunidades certificadas ↗
- Fundação Cultural Palmares — Certificação Quilombola ↗
- IBGE — Localidades Quilombolas 2022, arquivo da Bahia ↗
- IBGE/SIDRA — população quilombola de Biritinga ↗
- MOC — relatos sobre a origem e o reconhecimento de Vila Nova ↗
- Assembleia Legislativa da Bahia — audiência e memória comunitária ↗
- Governo da Bahia — experiência Tecendo o Amanhã ↗
- Ipea — Associação Comunitária Quilombola das Vilas Unidas ↗
- ALBA — Indicação nº 21.700/2016 sobre telefonia móvel ↗
- Diário Oficial da União/Codevasf — extrato de doação de 2021 ↗
- Incra — competência e política de titulação quilombola ↗
- NASA Earthdata — SRTM Global 1 arc-second ↗
- MapBiomas Brasil — Coleção 10 de cobertura e uso da terra ↗
- WorldClim — normais climatológicas históricas ↗
- ISRIC — SoilGrids 2.0 ↗
- Serviço Geológico do Brasil — GeoSGB ↗
- IBGE/SIDRA — Produção Agrícola Municipal, tabela 5457 ↗
- OpenStreetMap — dados cartográficos colaborativos ↗
Nota editorial: esta reportagem é um arquivo em construção. Correções documentais e contribuições de moradores do Quilombo Vila Nova são bem-vindas. Alterações relevantes serão registradas com data, descrição e fonte da correção.